Maria Luís Gameiro com participação de excelência na Taça das Senhoras.
O objetivo era simples, mas ambicioso: completar, pela segunda vez consecutiva, o rali mais duro do mundo, agora num patamar ainda mais competitivo. Os primeiros dias mostraram uma Maria sólida, a ganhar ritmo, a adaptar-se ao Mini e a evidenciar um andamento competitivo. Mas o Dakar tratou de lembrar cedo que as dificuldades espreitam a qualquer altura.
Na Etapa 2, quando tudo prometia ser um bom dia, surgiu um dos momentos mais marcantes da prova: o Mini foi abalroado por um camião, num incidente que danificou o carro, roubou tempo precioso e, sobretudo, atirou a dupla para bem mais atrás na ordem de partida. A partir daí, quase todas as etapas começaram no meio do pó, em trilhos cavados, obrigando a gerir ultrapassagens e a proteger a mecânica onde se queria apenas atacar. O andamento que antes evidenciou e que tinha tudo para redundar num muito melhor resultado final, ficou irremediavelmente hipotecado.

A primeira semana fechou, ainda assim, em crescendo. A primeira maratona, sem assistência, foi um teste de maturidade: duas etapas longas, em que a dupla liderada por Maria Luís Gameiro cumpriu o plano traçado na perfeição. Subiram na geral, reforçaram a confiança e encararam o dia de descanso com entusiasmo redobrado. Apesar do azar da segunda etapa, a prestação da dupla da X-raid tinha sido sem mácula.
Se a primeira semana foi dura, mas globalmente positiva, a segunda foi implacável. Surgiram problemas na caixa de velocidades na etapa 7, que roubaram andamento e obrigaram a mudar por completo a forma de conduzir.
Na etapa 8, uma duna causou dificuldades inesperadas e obrigou a dupla a cavar durante uma hora. A certa altura, de depois de tantos azares, o MINI passou a representar um exercício de gestão permanente: barulhos preocupantes, receio de quebra total, ritmo condicionado. Mas, mais uma vez, terminaram, assim como nas etapas seguintes, até ao derradeiro quilómetro.
A verdade é que todos os esforços foram compensados e que o digam até os colegas de equipa da piloto portuguesa. Ao longo da prova Maria Luís Gameiro parou por sete ocasiões para prestar assistência aos seus colegas na X-Raid, função que a certo ponto assumiu quase em exclusivo, mas que teve um papel preponderante para o sucesso da equipa, fazendo com que nenhum deles tivesse que “descer” para o Dakar Experience.

Este Dakar não se fez apenas de cronómetros e classificações. Fez-se de bivouacs que parecem cidades, de noites partilhadas com nomes grandes do rali-raid, como Nani Roma, Stéphane Peterhansel e até os “campeões” Nassel Al-Attiyah e Paulo Fiuza na navegação nos camiões, e muitas outras figuras de topo. Fez-se de conversas, de relatos trocados à volta de histórias de etapas onde todos, à sua maneira, “quase ficaram pelo caminho”. Fez-se também de uma relação especial com os portugueses que partilham o pelotão. Embora dispersos pelo imenso bivouac, muitas vezes afastados por compromissos, horários e logística, houve sempre um olhar atento aos resultados, um sorriso com cada bandeira verde e vermelha a cruzar a meta.
Ao mesmo tempo, o Mini transformou-se num símbolo. O próprio Sven Quandt, patrão da X-Raid, reconheceu que ela cor começou a mexer com ele! Chegaram mensagens de mulheres que se reviam naquela dupla, naquela cor, naquela teimosia em continuar, mesmo com tudo a complicar. A Taça das Senhoras – ganha entre duplas 100% femininas – é mais do que um troféu: é a materialização dessa representatividade. Sobre este tema aquele responsável alemão, com uma infindável experiencia no Dakar enfatizou “a Maria passou a ser a Princesa do Deserto. Não me canso de a felicitar pelo que conseguiu!”

O balanço deste Dakar é poderoso: duas participações, duas chegadas à meta, uma Taça das Senhoras, um lugar firme entre os Ultimate e uma narrativa que mistura dureza, teimosia, entreajuda e alegria genuína.
A posição final não revela tudo. Não conta o camião que a abalroou, as noites de maratona, o pó que parecia não ter fim, as conversas no bivouac, as ultrapassagens feitas quase às cegas. Não conta as vezes em que teria sido mais fácil parar – e elas escolheram continuar. O Dakar 2026 termina, mas a história de Maria Luís Gameiro no deserto está longe de acabar. Este balanço não é um ponto final – é uma vírgula em algo que, claramente, ainda tem muitos quilómetros pela frente.

Fonte: Good News
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