Smart Cities Summit: O futuro da Mobilidade nas Cidades

A mobilidade urbana atravessa um período de transformação marcado por fatores que vão além da inovação tecnológica. O aumento dos preços da energia, impulsionado pela instabilidade no Médio Oriente e pela guerra na Ucrânia, tem vindo a pressionar os custos de utilização do automóvel, ao mesmo tempo que levanta dúvidas sobre o ritmo e o modelo da transição energética nas grandes cidades europeias, incluindo em Portugal.

Futuro da Mobilidade nas Cidades: entre a transição energética e a incerteza global.

Neste contexto, o automóvel continua a desempenhar um papel central na mobilidade urbana, sobretudo num país onde a rede de transportes públicos ainda apresenta limitações fora dos grandes centros. No entanto, a combinação entre metas ambientais exigentes, custos crescentes e um parque automóvel envelhecido coloca desafios adicionais à sociedade portuguesa.

Foi precisamente este enquadramento que esteve em debate no Portugal Smart Cities Summit, organizado pela Fundação AIP a decorrer na FIL, em Lisboa. O evento reuniu empresas, municípios e especialistas para discutir soluções nas áreas da mobilidade, sustentabilidade e inovação urbana, com destaque para a conferência promovida pelo BMW Group sobre o futuro da regulação automóvel europeia.

Pressão económica e transição energética

O setor dos transportes enfrenta atualmente uma pressão simultaneamente política e económica. As metas de descarbonização são cada vez mais exigentes, mas os custos associados à energia, veículos e infraestruturas continuam a aumentar, agravados por um contexto geopolítico instável.

A eletrificação tem sido apontada como solução dominante, mas há um consenso crescente de que uma abordagem única poderá não responder às diferentes realidades dos mercados europeus. Thomas Becker, do BMW Group, alertou para a necessidade de diversificação tecnológica, defendendo que “não devemos colocar todos os ovos na mesma cesta”.

A transição energética, segundo os especialistas presentes, deverá ser gradual e adaptada à capacidade industrial e às condições económicas de cada país, evitando impactos negativos na competitividade do setor automóvel europeu.

Dr. Thomas Becker – Senior Vice President Governmental Affairs BMW, Hélder Barata Pedro – Secretário Geral da ACAP, Christine Marconcin Legl – Chief Operation Officer Critical Techworks e Dr. Gonçalo Lage – Deputado do PSD e Coordenador do grupo da Comissão de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação.

Portugal: crescimento e limitações

Portugal surge como um dos mercados europeus com maior crescimento na adoção de veículos elétricos, impulsionado por incentivos fiscais e pela expansão da rede de carregamento. Ainda assim, persistem obstáculos estruturais.

O parque automóvel nacional tem uma idade média superior a 14 anos, o que dificulta a redução de emissões. Segundo Hélder Barata Pedro, da ACAP, os incentivos atuais continuam insuficientes para garantir uma renovação eficaz e acessível à generalidade da população.

Ao mesmo tempo, o mercado europeu enfrenta uma crescente concorrência de marcas asiáticas, especialmente chinesas, que já representam cerca de 7% das vendas na União Europeia, com tendência de crescimento.

Digitalização e indústria nacional em destaque

Um dos pontos centrais do debate foi o papel da digitalização na transformação da mobilidade. A utilização de dados em tempo real permite monitorizar o desempenho dos veículos, otimizar consumos e reduzir emissões, aproximando os objetivos ambientais da aplicação prática.

Christine Marconcin Legl da Techworks, sublinhou que “a digitalização é a ponte entre as ambições de sustentabilidade e a implementação no mundo real”, destacando a importância de enquadrar esta evolução na regulamentação europeia.

A indústria automóvel portuguesa, responsável pela produção de cerca de 300 mil veículos por ano, assume também um papel relevante na cadeia europeia. No entanto, enfrenta desafios relacionados com a transição energética, a necessidade de investimento em economia circular e a abertura a novos mercados internacionais.

Impacto social e novas soluções

A transformação do setor automóvel tem também implicações sociais, com a perda de postos de trabalho nos últimos anos e a necessidade de requalificação da força laboral. Os intervenientes no debate defenderam políticas públicas que acompanhem esta transição, evitando impactos negativos nas comunidades.

No plano tecnológico, a diversificação volta a ganhar destaque. Para além da eletrificação, o hidrogénio surge como uma alternativa relevante, sobretudo para transportes pesados e de longo curso. O BMW Group prevê, por exemplo, o lançamento de modelos a hidrogénio a partir de 2028.

Mobilidade urbana num cenário de incerteza

A mobilidade nas grandes cidades será moldada por um equilíbrio entre sustentabilidade, acessibilidade e contexto económico global. A instabilidade nos mercados energéticos e as tensões geopolíticas tornam mais evidente a necessidade de soluções flexíveis e adaptadas à realidade.

O debate no Portugal Smart Cities Summit reforçou a ideia de que o futuro da mobilidade não dependerá de uma única tecnologia, mas da capacidade de integrar diferentes soluções, garantindo competitividade industrial, coesão social e viabilidade económica.

Num cenário global marcado pela incerteza, o automóvel mantém-se como peça central da mobilidade urbana, mas a sua evolução dependerá das decisões tomadas hoje ao nível da regulação, investimento e inovação.

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